sábado, 5 de janeiro de 2013

Resquícios de Welber

A pouco me deparei com uma postagem no Facebook que não pude deixar de ler e pedir permissão ao seu redator para postar aqui. Escrita pelo jornalista Mario Welber e com trecho de outro colega de profissão, Ivan Martins, o texto fala sobre medo. Um medo peculiar que vem assombrando a muitos marmanjos por ai.

 

Ele não quer namorar?
Os homens e suas falsas convicções de felicidade...

Dias desses, na fila do banco, uma moça de aparentemente 20 anos, consternada pelo fim do namoro, reafirmava com convicção a uma amiga que “o cara da música só existe num lugar pra onde a canção foi feita: a novela.” Dentro dessa revolta cada vez mais comum da mulherada, que já começa, entre outras, a se preocupar com a raridade de ver homens que simplesmente sintam atração por mulher, eu pergunto. Será mesmo que a sociedade se pintou tão acinzentada que as melhores coisas da vida - justamente as mais simples - perderam seus matizes e sabores?


Passear de mãos dadas, ir ao cinema, rir e brigar de vez em quando, sentir um ciuminho e mandar torpedos inesperados (para a mesma pessoa) se tornou algo tão ultrapassado assim? 

Primeiro, não existe “solteiro convicto”. Se há solteirice existem também tédios e inquietações, além é claro, da expectativa quase irreal de encontrar o amor da vida sempre na próxima esquina. O cara pode até estar, mas jamais será um solteiro convicto. Pelo simples fato de ser humano, sentir a carência e a idade baterem às portas ele se tornara um dia, forçosa e inesperadamente, um solteiro “não tão convicto assim”.
Em 2013 completarei 30 anos de idade. Não só, portanto, minha idade amadureceu. Junto com ela também minha maneira de ver o mundo e observar o que nele há de mais interessante: as pessoas.
Dizem que somos várias pessoas em uma. Aos 15 anos pensamos de um jeito, aos 20 de outro, aos 30 de outro e por aí vai. Apesar dos valores vitalícios, crenças enraizadas e princípios inegociáveis que há em nós, somos realmente uma parcela de pessoa a cada época da vida. Vou, no entanto, nas palavras e com a ajuda do jornalista Ivan Martins, refletir sobre “o que realmente importa” em épocas de prioridades desencontradas, sonhos truncados e expectativas frustradas.

“O mundo parece estar cheio de homens que não querem namorar. Eles me contam isso, as mulheres que saem com eles dizem isso. Que o sujeito hesite em casar, ter filhos, financiar apartamento pela CDHU – tudo isso me parece compreensível. Esses são grandes passos e nem todos estão prontos para o compromisso. Mas namorar, tanto quanto eu sei, não dói. Andar de mãos dadas, viajar no feriado, ir ao cinema no sábado à tarde são atos no campo do prazer, não do dever. Não deveriam constituir um problema. No entanto...

Pergunte às mulheres e ouça o que elas têm a dizer sobre o assunto. Essencialmente, vão contar que os caras só querem o bilhete de ida. Estão a fim de uma viagem única. Se gostar do sexo, do agarro, do beijo, o sujeito volta; ou não. Tudo é negociado um dia de cada vez. Não há laços, nem fins de semana assegurados, muito menos exclusividade. Esta situação, que antes seria considerada transitória, agora pode durar indefinidamente. Do ponto de vista de algumas mulheres com quem eu tenho conversado, os relacionamentos ficaram parecidos com empregos precários: não há contrato, não há garantias e aviso prévio não existe. Pode acabar a qualquer instante, já que oficialmente nunca começou. É o amor terceirizado.
Da parte dos caras, a queixa é outra. “Eu não me envolvo”, eles reclamam. Sai moça, entra moça, e fica o mesmo vazio. A mulher que parecia espetacular perde o brilho em poucos dias. A empolgação inicial não se sustenta. Tudo se resume a um desejo passageiro, que pula de uma dona para outra. Como nada ganha relevo, tudo é igual a tudo. Então se trata, simplesmente, de administrar uma agenda com vários nomes. Isso inclui Facebook, celular e muitas horas vazias e solidão. Um dia a Fulana, outro dia a Sicrana, amanhã, quem sabe, alguém capaz de fazer diferença. Em cada uma delas, novidade e prazer. Nos intervalos entre elas, ansiedade e tédio. Entre uma e outra, angústia. 


Como eu já disse, não entendo muito bem essa dificuldade. Acho bom demais namorar. Melhor coisa do mundo, na verdade. Os primeiros meses de namoro são melhores que banho de cachoeira, melhor que pegar jacaré no fim de uma tarde de verão, melhor que ficar bebum em companhia de amigos queridos. No namoro a gente descobre (ou redescobre) que pode ser feliz, que o nosso romantismo não morreu, que existe dentro de nós um sujeito capaz de gestos arrebatados e pensamentos delicados, um cara que se lembra de comprar um presente inesperado e de mandar um poema no meio da tarde, pelo celular. Quem não gosta de sentir-se assim levanta a mão - e corre assim mesmo, de mão erguida, para o analista mais próximo!

Então, não acho que os homens tenham problemas com isso. Seria desumano. Minha impressão é que há dois tipos de situações, a simples e a complexa. A simples é realmente simples: ele não quer namorar você, mas não significa que não queira namorar em geral. As mulheres às vezes confundem. Criam fantasias sobre as dificuldades afetivas de um cara que apenas não está a fim delas, mas cai de quatro dias depois pela próxima mulher que entra na vida dele. Isso acontece o tempo todo. É do jogo. Levanta e vai à luta, menina.
Mas há outro tipo homem para quem namorar é realmente um problema. Entre ele e o oásis de ternura e erotismo chamado namoro caminha a besta vigilante da ansiedade. A fera peluda de olhos flamejantes impede o sujeito de se concentrar. Faz com que ele se disperse numa multidão de desejos conflitantes. Diante de tantas garotas, diante de tamanha possibilidade de prazer, o cara não consegue fixar sua atenção em ninguém. Quer tudo, deseja todas, e, por mais que obtenha, continua insatisfeito - porque há sempre mais ao redor. Sempre existe uma mulher mais bonita, mais sexy, mais interessante na próxima esquina. Se a bússola do coração está quebrada, seu dono nunca vai achar o Norte. É uma corrida sem linha de chegada. Mesmo sozinho e miserável, o sujeito seguirá esperando a resposta definitiva do universo às suas inatingíveis aspirações. Pode chamar isso de burrice, mas eu acho que é mesmo ansiedade e desassossego. Uma forma destrutiva de romantismo. 


As mulheres se julgam as criaturas mais românticas do planeta, mas talvez não sejam. Olhe em volta: diante de um cara apaixonado, bacana, determinado a ficar com elas, boa parte das mulheres sossega. O cara pode não ser perfeito, mas se torna “o cara”. Há nisso um pragmatismo que muitos homens perderam. Enquanto as mulheres escolhem de maneira apaixonada, mas com os pés no chão, eles parecem viver nas nuvens, sonhando com a mulher perfeita. Como ela não aparece, o cara vai testando uma atrás da outra, como se levasse um sapatinho de cristal no bolso. O padrão de exigência é elevado, opressivo talvez. Muitas vezes baseado apenas em aparência. Tem homem adulto se apaixonando pela mulher da capa de revista, por atriz de filme pornô, por modelo americana. Homens de 30 anos, eu digo. Homens de 40. Não há limite de idade para o desvario. Uma legião de barbados de todas as classes e graus de instrução vive à mercê de fantasias que bloqueiam as construções afetivas verdadeira. Como o sujeito vai namorar se a mulher da vida dele pode aparecer do nada na semana que vem? Se você está apaixonada por um cara assim, talvez seja melhor dar um tempo e esperar ele pousar na Terra. Pode demorar uns aninhos.

O Alain de Botton, que virou meu guru nesses assuntos, lembra que ali pelos 40 anos o sujeito já começa a perceber que vai morrer, e isso acrescenta a tudo que ele faz uma tinta de urgência. Sobretudo no sexo. Antes de empacotar, antes de ficar broxa e caído, é preciso aproveitar a juventude – dos outros. Esse sentimento é forte. Se o jovem quer todas as mulheres do mundo porque está nadando em desejo e inexperiência, o mais velho sente o mesmo porque acha que está saindo de cena e tem fome de vida. O período de maturidade masculino, essa quimera científica, fica cada vez mais curto, espremido entre duas áreas de insensatez em expansão. 


Claro, não há dois homens iguais. O roteiro que eu descrevo não vale para todos. Talvez valha só para uma minoria ruidosa. A maioria – quem tem essa estatística? – deve estar feliz agora mesmo, encomendando na internet um presente para a namorada. Ou planejando uma viagem romântica de Ano Novo com ela. Não sei. Olho pro mar e vejo apenas quem está se afogando – e são muitos. Se eu pudesse dizer alguma coisa para eles, diria “pare, respire, comece alguma coisa”. Escolha alguém que toque os seus sentimentos e se deixe ficar ao lado dela. As mulheres, quando querem, quando nós deixamos, têm um jeito gostoso de nos fazer felizes. Pode não ser para sempre, mas quem se importa? A vida é um dia de cada vez – e eles são melhores quando a gente está namorando.”

Não que precisemos, necessariamente, de alguém para sermos felizes; mas pelo simples fato de que só se é feliz quando dividimos o nosso melhor com alguém.

2 comentários:

Unknown disse...

Concordo plenamente com sua opinião. Namorar é bom, mas nós homems ou esperamos uma deusa ou temos medo de nos envolver por pensar nas possibilidades de quem sabe na semana que vem alguem diferente aparecer. Não estou me afogando mas sinto como se estivesse à deriva. Ainda creio que não faz sentido uma bússola para nos guiar diante de um mar com tanto peixe e tantas oportunidades. Cristovão Colombo tentou novos caminhos para a Asia e acabou descobrindo as Américas. A vida é uma jornada incrivel e dividir com alguém é mais doce.

Unknown disse...

Concordo plenamente com sua opinião. Namorar é bom, mas nós homems ou esperamos uma deusa ou temos medo de nos envolver por pensar nas possibilidades de quem sabe na semana que vem alguem diferente aparecer. Não estou me afogando mas sinto como se estivesse à deriva. Ainda creio que não faz sentido uma bússola para nos guiar diante de um mar com tanto peixe e tantas oportunidades. Cristovão Colombo tentou novos caminhos para a Asia e acabou descobrindo as Américas. A vida é uma jornada incrivel e dividir com alguém é mais doce.